quarta-feira, 29 de julho de 2009

29 - 07

é certo que não me calarei. contarei a história maravilhosa, até que percebam que a hora de dormir não se pode evitar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Esperas na poltrona

Se existe algo que sempre em mim foi comum, mas que hoje a percebo de forma diferente, esse algo é o tal do esperar. Em todo momento eu estive esperando muito por algo. Acho que isso me é tão comum, que podem até achar que isso me cai bem. Acredito que, embora a mencionem bem mais que eu e me cobrem resultados, chegam a concordar que isso em mim é bem habitual, que já quase deixo de me importar. Não que a tenha como preferível, mas só o fato de mencioná-la sem rodeios, lhe pode revelar coisas secretas sobre a minha forma atual de aceitação da espera. Penso que esperar passa a não soar à sacrifício quando se sabe o valor do que se espera e esse valor se justifica na espera.



Sim, eu acho que existe algo de muito grande esperando por mim e cada vez que eu lamento a sua demora, provo que não tenho a mínima noção do seu valor e que não a mereço nesse exato momento de desconfiança, o que significa talvez mais um tempo sentada. É, definitivamente não vale a pena.



Posso até ter me acostumado demais; talvez tenha amadurecido; talvez não tenha outra opção; ou talvez tenha entendido a moral da coisa, sei lá, mas hoje eu sei que posso esperar e consigo até sentir um certo prazer nisso. O segredo se encontra um pouco na minha expectativa.



Eu sempre coloquei expectativas excessivas em tudo.. coisas, pessoas, momentos. E muito embora já tenha me dado mal nessas investidas, ainda ouso achar que isso não é de todo prejudicial. Eu entendo minhas expectativas como uma formulação da minha fé.



Eu acredito tão demasiadamente na minha vida, que por mais que ela não seja nenhum tipo de filme, eu aguardo sempre por uma espécie de final de feliz.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Trechos saturadamente relidos na poltrona

"Pedi assombro, e ele me concedeu. Um burguês sem imaginação irá cutucar o nariz diante de uma pintura de Claude Monet; uma pessoa cheia de assombro ficará ali em pé tentando segurar as lágrimas.

De modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos. Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris ou do perfume de uma rosa, como acontecia antes. Ficamos maiores e todo o resto ficou menor, menos impressionante. Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios da sabedoria do mundo. Não deslizamos mais os dedos sobre a água, não gritamos mais para as estrelas nem fazemos caretas para a lua. Água é H2O, as estrelas foram classificadas e a lua não é feita de queijo. Graças à televisão via satélite e aos aviões a jato, podemos visitar lugares que no passado eram acessíveis apenas por Colombo, Balboa e outros exploradores intrépidos.

Houve um tempo, não muito distante, em que uma tempestade fazia um homem adulto estremecer e sentir-se pequeno. Deus, no entanto, está sendo deixado de lado pelo mundo da ciência. Quanto mais sabemos sobre meteorologia menos inclinados nos tornamos a orar durante uma tempestade. Os aviões voam agora acima, abaixo e entre elas. Os satélites reduzem-nas a fotografias. Que ignomínia — se é que uma tempestade pode experimentar a ignomínia — reduzida de teofania a mero incômodo.

Heschel diz que hoje cremos que todos os mistérios podem ser resolvidos, e que todo o assombro não passa do "efeito que o novo imprime sobre a ignorância". Certamente o novo é capaz de nos impressionar: um ônibus espacial, o jogo mais recente de computador, a fralda mais macia. Até amanhã, até que o novo se torne velho, até que a maravilha de ontem seja descartada ou tomada como coisa certa. Não é de admirar que o rabino Heschel tenha concluído: "A medida que a civilização avança, o senso de assombro declina".

Ficamos tão preocupados conosco, com as palavras que falamos e com os planos e projetos que concebemos, que nos tornamos imunes à glória da criação. Mal notamos a nuvem que passa sobre a lua ou as gotas de orvalho nas folhas da roseira. O gelo cobrindo o lago vem e vai. As amoras silvestres amadurecem e murcham. A graúna faz seu ninho do lado de fora da nossa janela e não a vemos. Evitamos o frio e o calor. Refrigeramos a nós mesmos no verão e sepultamo-nos debaixo de plástico no inverno. Rastelamos cada folha assim que ela cai. Estamos tão acostumados a comprar carne, aves e peixe pré-embalados no supermercado que nunca paramos para pensar sobre a liberalidade da criação de Deus. Tornamo-nos complacentes, vivendo vida prática. Perdemos a experiência do assombro, da reverência e da maravilha.[1]

Nosso mundo é saturado com graça, e a presença furtiva de Deus é revelada não apenas no espírito mas na matéria — num gamo que atravessa aos saltos uma campina, no vôo de uma águia, no fogo e na água, num arco-íris após uma tempestade, numa corsa gentil correndo pela floresta, na nona sinfonia de Beethoven, numa criança lambendo um sorvete de chocolate, no cabelo ao vento de uma mulher. Deus queria que descobríssemos sua presença amorosa no mundo a nosso redor".

[O Evengelho Maltrapilho - Brennan Manning]